PRÓXIMA JAM-RODA VIVA: Novembro de 2007

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TESTEMUNHOS:

Era uma sala com o piso de madeira, paredes de tijolo, daqueles antigos, sabe? Quando abriram a porta, a sala era grande e tomada de gente, de corpos muito vivos rolando, rastejando, se mexendo, cada um em uma posição diferente, brincavam consigo mesmos em movimentos livres.

Imediatamente quis me jogar naquele piso de madeira. Vi que no momento em que eu escolhi me soltar naquele chão, junto a todos os outros corpos, eu decidi somente me deixar levar por mim mesma, sem julgamento, sem preocupação.

Com o tempo, percebi também que a sala já não era sala, que as paredes já não pareciam estar lá. Sentia meu corpo, mas ao mesmo tempo meu corpo não estava ali, porque o que eu julgava ser eu mesma já não estava ali também. Ai fui percebendo que tudo era muito mais, que meu corpo fazia todo o sentido do mundo, mas que ao mesmo tempo desaparecia nas ações e diante de tantos corpos entrelaçados que brincavam sem maldade.

Mesmo quando não estava no meio das pessoas emboladas, que riam, emitiam sons, pulavam, dançavam, brincavam; eu observava e eu estava lá também. E ai, quando a vontade não podia agüentar mais, me jogava num movimento. Qualquer um, com as pessoas, sem as pessoas, comigo mesma.

Foram 4 horas de Cristina sem Cristina, e de Cristina com uma coisa assim, mais Cristina sabe? Vi, senti, percebi, que eu já nem era mais tão Cristina, nem mais tão importante. E entendi o que faltava. Sentia falta, falta de ser quem eu sempre fui. Quem eu era quando ainda não falava, não julgava, brincava e fazia sons esquisitos, me jogava no chão, fazia manha e não ligava pra o que os outros pensavam. Parece que encontrei algo que estava escondido ali em um canto, na sombra, e é ensinado que não devemos mais usar. Na verdade, achava que isso nem estava mais lá dentro de mim.

Depois da roda, fiquei muito tempo sentindo e pensando em tudo, e a todo o momento queria fazer coisas, movimentos que normalmente não fazemos no dia-a-dia por causa de nossos corpos e pensamentos educados e condicionados. "Corpos Dóceis", como diria Foucault."

- Cristina Lustosa 29/09/2007

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