A Consciência do Movimento na Formação dos Profissionais de Educação
por Soraya Jorge

“Angel Vianna lembra o momento em que Klauss Vianna, acompanhando uma improvisação de atores, fala para pra ela, pela primeira vez, o nome que viria a ser seu lema pedagógico, e que é sustentado por Angel ainda hoje: “Olha que expressão corporal bonita tem os atores...” disse Klauss, encantado. A partir daí, o termo expressão corporal é empregado no meio artístico como uma chave para desvendar os mistérios do corpo e uma ferramenta para maximizar a expressividade e emotividade dos atores em cena e em suas vidas.” 1

Expressão Corporal, Consciência do Movimento, Consciência Corporal são nomeações que vem sendo buscadas para melhor encontrar a filosofia e prática do movimento em sua própria arte e vida.  Práticas de corpos sensíveis, de danças pessoais, de respeito pelo corpo em sua anatomia e funcionamento.
A Consciência Corporal proporciona a vivência do corpo como um espaço de experiência pulsante de vida.  A escuta apurada de si através de práticas de movimento sensibiliza e cria dinâmicas expressivas, reinventa o cotidiano, estimula a alegria como impulso e o tônus de vida. Permite um encontro com o seu e com o corpo do outro.

A força da Consciência Corporal para o educador é justamente proporcionar o encontro com esse outro - seja com os alunos, com o livro, com as idéias, com o pensamento, com o movimento - ampliando assim sua compreensão sobre a extensão das suas vibrações criativas e transformadoras. Assim, essa consciência dá sentido ao educador na reflexão e prática de sua arte.

“Talvez a arte da educação não seja outra senão a arte de fazer com que cada um torne-se em si mesmo, até sua própria altura, até o melhor de suas possibilidades. Algo, naturalmente, que não se pode fazer de modo técnico nem de modo massificado. Algo que requer adivinhar e despertar as duas qualidades do gênio do coração, do mestre que “ adivinha o tesouro oculto e esquecido, a gota de bondade e de doce espiritualidade escondida sob o gelo grosso e opaco e é uma varinha mágica para todo o grão de ouro que ficou longo tempo sepultado na prisão de muito lodo e areia” ( Nietzsche). Algo para o qual não há um método que sirva para todos, porque o caminho não existe. Se ler é como viajar, e se o processo da formação pode ser tomado também como uma viagem na qual cada um venha a ser o que é, o mestre da leitura  é um estimulador para a viagem. Mas há uma viagem tortuosa e arriscada, sempre singular, que cada um deve traçar e percorrer por si mesmo.” 2

Na maioria das vezes, a educação é vista como transmissão de informação e não como um acontecimento que envolve outros fatores além do conhecimento racional. Dessa forma, a Arte, não poderia participar do processo educativo, uma vez que ela não trabalha estritamente com o campo da razão, mas envolve também afetos e percepções.
Considerar a educação sob o prisma de uma transmissão de informações é pressupor que as perguntas precisam de respostas como verdades.  Ou seja, uma vez que o aluno faz uma pergunta, o professor precisa respondê-la para que sua curiosidade cesse, provocando assim um tipo de relaxamento que gera um estado de inércia, e não alimenta  um processo continuo de questionamento, que é o cerne de todo aprendizado.

Num movimento de resistência ao que é imposto a todo instante pelas formas de vida dirigentes (a educação que apenas in-forma, põe em fôrma, e nem forma), afirmo a interrogação como uma questão de apropriação: a pergunta dá corpo ao processo, a um estado de presença que alimenta o movimento.
Segundo Deleuze, fazer do ambiente da aula um acontecimento na possibilidade eminente de um encontro é valorar o conhecimento que se dá na troca e não apenas na transmissão unilateral professor-aluno.

Uma educação autoritária não semeia autonomia, criatividade, diferença, e sim repetição, formas prontas e legendas para as experiências. No entanto, nomear vai além de satisfazer as perguntas.  É um querer o diálogo, a comunicação, palavras vivas. É na troca, na alquimia desse encontro que acontece o remexer de conteúdos e sentidos, criando novos desenhos, novos contornos. O aprendizado se desenha na potência criativa de cada ser humano. A aula é um ato de criação, a pedagogia como um estado em contínua transformação.

Na minha experiência com educadores, observo que estes não estão tendo a oportunidade de trabalhar suas sensibilidades e expressividades; continuam privilegiando a educação racionalista em detrimento de outras formas de percepção que poderiam gerar novas qualidades no movimento da vida.

O que acontece com as formas de pensar quando, numa aula, se vivencia as possibilidades de Consciência Corporal? Ondas de calor a partir de um movimento articular, reverberações ósseas estruturando uma caminhada, mudanças no olhar e no campo de visão, maior clareza no contorno do corpo através das sensações da pele. Balanços, pausas, mudanças rítmicas; a experiência das qualidades de movimento expressando a multiplicidade de emoções, sentimentos e sensações; deslocamentos espaciais e a sensação de liberdade de ação; lideranças de movimento proporcionando não apenas condicionamento físico, exercício, mas o gesto expressivo, espontâneo e potente.

Independente da disciplina ministrada pelo educador, a sensibilização implica numa percepção singular do ser e a consciência das diferenças e similaridades entre o eu e o outro. Por conseqüência, uma pedagogia que contemple a extensão e cumplicidade das relações entre os saberes e os seres privilegia a interação humana e sua subjetivação.
Não separando a experiência da fisicalidade de um pensamento, a arte do conhecimento é a de se recriar em gestos, palavras, cores, traços e em muitos outros que desconheço.

“A questão real é que arte é forma de conhecimento e todo conhecimento é função vital, todo conhecimento garante vida e complexidade. Desvalorizar o artístico é matar, em altos níveis de complexidade, nossa Humanidade. Insistimos aqui: a Arte é o tipo de conhecimento que explora as possibilidades do real. Não nos basta acreditar em uma certa realidade, temos que aprender os caminhos complexos para tentar atingi-la, e temos que fazer isso para sobreviver, não só em corpo, mas nos signos que já somos capazes de produzir e extrasomatizar, além das necessidades biológicas”. 3
A experiência constrói um corpo, um fazer artístico, criativo, enuncia a mutabilidade; pois cada experiência é única. Nela a verdade se esvai, se esvazia, o vazio se angustia. E das contrações disformes, formas pulsantes se criam. Na ânsia por resultados, o que vejo são cascas sem inspiração – não há espaço para o caos pois não se suporta o não construído. As formatações rápidas dão pouco espaço para o sentir, há uma insuportabilidade em relação ao que se desconstrói, as transformações acontecem sem processo, sem apropriação de percurso. E, no entanto, de acordo com Angel Vianna, não há forma sem percurso.

Apesar do tempo da experiência poder conter largura e profundidade em poucos segundos, cuidar, dedicar-se implica em entrega, em envolvimento, atitude de responsabilidade com o que vai se fazendo, tecendo. Não ficamos prontos, fechamos ciclos e por isso a atenção é foco e expansão, e o aprendizado está sempre trazendo novos braços e extensões.

Corporificar o estado fino de atenção é se apropriar das forças do momento e criar com elas, indo além.
Sendo assim a consciência é uma atitude.  Pessoal e coletiva. E a educação, um espaço onde essa atitude  pode se expressar. Afirmo com isso a experiência de gestos pensantes que dançam em uma prática de se estar no momento presente.  E termino esse texto hoje com uma pergunta (tento fazer dela movimento, da angústia de não saber, caminhos para novas inspirações): como lidar com o tempo cada vez mais curto que as instituições nos oferecem para essa educação? Como lidar com esse tempo num contexto de aprendizagem, no compartilhar que podemos construir nas salas de aula, encurtado cada vez mais por políticas interessadas em especializações produtoras de técnicos, reprodutoras de idéias autoritárias e massificadas?

“Essa transformação é um processo que exige tempo, mesmo quando se dá por etapas. E o tempo será inútil se cada ser humano não tiver por método um trabalho profundo e correto, centrado na conscientização e na continuidade  que são ainda mais importantes do que a força e a quantidade. Com isso, exige-se um mínimo de perseverança e coragem”.4

1. FREIRE, Ana Vitória Freire. “Angel Vianna: Uma biografia da Dança Contemporânea”. Dublin. Rio de Janeiro, 2005. p.84.
2. LARROSA, Jorge. “Nietzsche e a Educação”. Autêntica. Belo Horizonte, 2002. p.45,46.
3. VIEIRA, Jorge de Albuquerque. “Teoria do Conhecimento e Arte. Formas de Conhecimento: Arte e Ciência. Uma Visão a Partir da Complexidade”.  NESC PUC/SP, 2006.p.83.
4. VIANNA, Klauss. “A Dança”. Summus Editorial. São Paulo, 2005 (3.ed). p.148.