| Afagos Brutos: Corpo e Realidade em João Gilberto Noll
por Alluana Ribeiro
Mestranda em Estudos de Literatura, PUC - Rio.
“Eu lhe sopraria um aceno. E um agrado que fosse se tornando afago, afago que se transformasse em abandono, abandono e saciedade. Saciedade e então um renovado envolvimento”.
- João Gilberto Noll, Acenos e Afagos.
Um corpo sem nome marcha desgovernadamente pelo Rio de Janeiro. Vara as ruas de Copacabana fazendo sexo com mendigos, urinando em leprosos, experimentando a prostração do confinamento em um cubículo escuro e imundo, e a euforia alucinada de uma dança ao som dos tambores do carnaval carioca. Por enquanto não há para ele repouso possível. Tudo o que faz é andar e correr. Mas não porque sente medo, pelo contrário, correr é o melhor a fazer frente à hecatombe de realidade que experimenta nas ruas do Rio de Janeiro. Correr não da realidade, mas em direção a ela é o que faz esse mendigo nômade, personagem principal do romance A Fúria do Corpo, livro de João Gilberto Noll escrito na década de oitenta (1).
O personagem é sem nome. Autoriza-me que o chame de Arbusto, Carne tatuada ou Vento; devo chamar-lhe do que mais instável me ocorrer, uma vez que seu nome de hoje não irá mais reconhecê-lo amanhã. Nem o nome, nem a idade, nem a profissão, essa não, nada que lhe confranja uma certidão. “Sexo, o meu sexo sim:”, ele diz, “ o meu sexo está livre de qualquer ofensa, e é com ele-só-ele que abrirei caminho entre eu e tu, aqui” (2). Não é o nome que só contribui ainda mais para encastelá-lo em uma identidade fechada que irá fazê-lo se abrir para a realidade em que vive, mas o sexo, o mais íntimo de seu corpo.
“Os narradores de Noll sempre padecem do contato com a realidade, são nesse sentido “apaixonados” verdadeiros, vitimas da paixão, à procura de uma realidade em falta”(3). No entanto o pathos da paixão em Noll está distante tanto do sentido originário do termo – pathos, no latim passio, algo que acontece ao homem sendo ele uma vítima passiva; experiência sofrida, infligida, dominadora – quanto do romântico - aspiração ao infinito, desejo espontâneo de uma subjetividade quase divina em sua autonomia.
Em A Fúria do Corpo, Eros trabalha em conjunto com Afrodite: a paixão, mistura de um amor romântico com um erotismo exacerbado, faz com que o encontro com objeto do desejo não seja idealizado, mas perfure o corpo do sujeito em uma operação que envolve excrementos, dores, cheiros e prazeres. Além disso, o mendigo de Noll não sofre de paixão, não é necessariamente uma vítima, mas um agente que deseja violar a fronteira entre seu corpo interior e a realidade em que vive, um apaixonado verdadeiro que quer tocar no coração de Afrodite, a mulher amada, morder seu seio. (“eu mordia o seio que guardava o coração você me dizia vem, e em cada convite mais uma curva do labirinto se desenhava; eu enfrentava mais uma curva e me perdia mais uma vez ao teu encontro. E cada encontro nos lembrava que o único roteiro é o corpo. O corpo” (4)).
Ao longo do romance, o narrador - personagem anda sem parar em busca dessa experiência apaixonada com o real. Impulsionado pelo movimento desesperado de seu desejo erótico, faz sexo com outros mendigos, leprosos, prostitutas, marginais. Ele não quer ser enganado pela “doce mentira com que tentam nos embalar” (5), quer o contato, o encontro visceral, quer varar as entranhas de Afrodite - guerreira pobre, mendiga como ele, e prostituta, ela também vive vagando pelas ruas de Copacabana sobre-vivendo às custas de seu próprio corpo, buscando uma experiência de comunhão que a deixará livre e selvagem.
Os dois frente-a-frente, sentados um em cada banco, no calçadão da Avenida Atlântica são como dois “monstros angelicais atrás de um pouco daquilo que chamam felicidade, a palavra felicidade aqui parece uma avozinha que só sabe contar histórias do seu tempo, porque no meu tempo, porque no meu tempo” (6). Então ele esbofeteia essa avozinha caduca. Mais do que felicidade. Ele quer tocar na matéria bruta das coisas, quer um gozo místico que o una a Afrodite para sempre, quer romper os limites de seu corpo próprio e abri-lo ao outro, ao mundo real tal como ele é – mundo dos corpos, do sangue, das doenças, carências, afetos e brutalidades.
Para Bataille, “toda a realização erótica tem por princípio uma destruição da estrutura do ser fechado” (7). Ao abrir-se, o corpo deixa à mostra o que ele tem de mais íntimo: suas secreções, seus cheiros, seus vazios – o corpo se expõe em busca de uma comunhão - nem que essa comunhão doa, nem que seja violenta (até porque, essencialmente, o campo do erotismo é o campo da violência, da violação). Em a Fúria do Corpo, a atividade erótica é o apelo febril por um momento de “suspensão do limite e da fronteira entre o corpo íntimo e a realidade vivida.” (8) , sendo a realidade entendida aqui como o Real de Clément Rosset, que é auto-suficiente, inevitável, simplesmente o que é. (9)
O mendigo quer “foder com a carne do mundo, carne doente, desenganada o que fosse, e que se recebesse o dinheiro que fosse, esse dinheiro reclamado por todos pela boca da inflação”, e ele e Afrodite “trepando, fudendo, chupando, levando, lambendo a carne do mundo, tudo muito triste, muito trágico, muito degradado, mas as rédeas da dignidade não eram menos sórdidas nem mais castas” (10). São “dois corpos que se desvanecem a qualquer toque de amor” (11). Mesmo sabendo que o amor entre eles provavelmente “se plasmará com uma dor que o organismo ainda não conheceu, que seus fracassos mais escandalosamente anônimos não conhecerão alento senão de suas graves feridas” (12),continuam vivendo em busca desse momento apaixonado de comunhão. Sabem que a vida dói, mas é a vida; e para eles estar vivo “é uma espécie de rebelião. Rebelião contra essa sina de ir puxando a vida como quem puxa a corrente inesgotável de uma força que nos excede, rebelião de se ir vivendo como quem puxa o fantasma que nos extenua sem que saibamos que déspota é esse que nos quer assim consumidos, varando dias e noites com paixões já desbotadas e humilhadas diante da ardência do que foram” (13).
As experiências eróticas transgressivas, tanto com Afrodite quanto com outras figuras que vão surgindo ao longo do romance aproximam-se do que Bataille define como Experiência Interior. Ambas são dadas “no momento em que, rompendo a crisálida, ele (o sujeito) tem a consciência de rasgar a si mesmo e não a consciência oposta de fora” (14); ambas dizem respeito a uma experiência transgressora de abertura do sujeito e comunhão com o desconhecido que, diferentemente da religiosa e da romântica, é ligada ao corpo, ao erotismo e até à experiência mística. Mas, diferentemente da Experiência Interior (15), da qual nada se pode falar, apenas: “o que vi escapa ao entendimento” (16), o casal de mendigos no livro de Noll, em um surto emocional e místico, profetiza a existência de uma palavra louca, de um grito capaz de esboroar seus corpos e, em um
experiência fulminante que os exceda.
Afrodite, no ápice de seu surto, evoca a palavra profética que os unirá ao real desejado. “Quero é me comunicar com as pedras que respeitam o verbo vivo que eu sou”, diz Afrodite, “não quero mais tentar seduzir a vida com palavras, ah não, quero permanecer muda no meu canto num gesto sem volta, se a minha presença se faz entender tudo bem, se não me cheira, me toca, me fere num contato imediato, nada de precárias pontes feitas de palavras que não agüentam o peso do meu ato, é que transito entre eu e o mundo sem a canalização da fala que quando se ouve já não é mais a intenção original de quem a formulou eu não, eu dou o meu pensamento em bruto porque quando a palavra chega ela só consegue anunciar o que já se revestiu de alguma coisa posterior mais submissa aos ouvidos calejados de tantas mentiras” (17).
Convicta de que essa palavra é a verdadeira, de que essa experiência é salvadora, ela fala loucamente, mas já não faz por onde ser entendida. As idéiasali, para eles, “já não são feitas mais para a expressão mas existem em seu estado sólido” (18). A fala-fala, a “fala genuína”, brotando do corpo erotizado e apaixonado de Afrodite busca expressar a mais brutal concórdia entre o corpo próprio e a realidade vivida. E, mesmo não sendo a Fúria do Corpo um livro católico, como o definiu Silviano Santiago, uma vez que ele está muito mais ligado à Experiência Interior que à religiosa, nele Noll ainda insiste na nessa experiência grandiosa e mística de comunhão eterna que libera o sujeito de sua descontinuidade.
No entanto, já durante o romance, Noll pressente que a relação entre o interior, corpo próprio do sujeito, e o exterior, o mundo, o corpo do outro, não é tão simples, não é tão suave. O transe não pode durar para sempre e não pode salvar o sujeito de sua condição individual. Cada corpo nasceu sozinho e irá morrer sozinho, não há um amor eterno, um pacto fiel, uma paixão duradoura ou um gozo interminável que os confira uma existência contínua e apague definitivamente as fronteiras entre o exterior e o interior. O que resta no final são apenas acenos e afagos, descontinuidade e continuidade do ser. Muitas vezes, “o que acontece não é uma cópula, é apenas uma união selando um ódio, e em vez de gozarmos acontece um choro convulso entre os dois corpos choramos abraçados até o amanhecer, e quando amanhece um dá banho no outro, um ensaboa o outro, um enxágua o outro, um seca o outro, um penteia o outro, um beija o outro, um se despede do outro, um diz vai dormir bonitinho pro outro, e antes de se ausentar um coça as costas do outro, e faz um sorriso pro outro, e fala que a vida é assim mesmo pro outro” (19).
Em Acenos e Afagos, último romance de Noll, ele “evita a cilada mística de um certo barroquismo sensível do romance A Fúria do Corpo (20), mantendo a intensidade de desejo transgressor erótico e apaixonado que alimenta seus personagens mas desfazendo a ilusão romantizada de um “extremo místico do êxtase erótico” (21).
O livro narra a trajetória de um personagem, também sem nome, que, ao longo de sua trajetória, vive diferentes experiências homoeróticas com corpos totalmente enigmáticos - como seu amigo “engenheiro” e o “segurança” - em lugares também inusitados - como a selva e um suspeito submarino alemão. O personagem vaga, como faz a maioria dos personagens de Noll, movido por um desejo erótico transgressor, em busca de experiências apaixonadas de realidade que rompem as fronteiras de seu corpo o libertando, dessa forma, de sua clausura, de sua condição subjetiva individual. No entanto, o próprio título do livro anuncia que não há uma comunhão eterna, não há um êxtase libertador; o que existem são momentos, instantes em que os corpos se encontram e interpenetram, encontros em que um e outro trocam afagos e depois se despedem. A Experiência Interior de Bataille aqui não é mais tão grandiosa, embora por isso não seja menos intensa. Ela é experimentada e depois acaba. O que resta então são afagos e acenos se articulando de várias maneiras – acenos e afagos, afagos e acenos, afagos afagos e um aceno, acenos acenos e um afago...
Na epopéia libidinal do personagem, não há esperança de que uma experiência místico-erótica o salve de sua condição, mas é a sua condição muda a cada encontro. Ex morto que se torna mulher e menstrua - mas, no entanto, é ativo no sexo com seu marido -, que transa com uma senhora de oitenta anos sedenta de esperma, e com uma cabra que lhe pareceu atraente, o personagem é uma “subjectividade ilhada (Moricone), de consciência absorvida pela visceralidade de sua relação com os corpos que encontra e com os quais complexas constelações se tecem e se desfazem continuamente, sempre passando pela membrana do corpo” (22).
O desejo transgressor sem freios do personagem de Acenos e Afagos está bem longe de uma ilusão de comunhão eterna, e até romântica, de um encontro amoroso que o satisfaça, que o preencha, que o libere de sua condição descontínua, nas palavras de Bataille. Pois, apesar de não recair em um romantismo subjetivo exacerbado, nem em uma perspectiva identitária, em A Fúria do Corpo o mendigo ainda alimenta a esperança de compartilhar de uma “intimidade delicada”, nas palavras de Karl Erik, com Afrodite e com a realidade nua e crua que o rodeia. Seu maior desejo é varar as entranhas de Afrodite, ajoelhar a seus pés e descobrir que não há mais nada a dizer. E seu desejo se consuma. Afrodite se tornou “transmissora do Sagrado Silêncio, da mais brutal concórdia” (23). Ninguém sabe o que ela viu na presença de Deus, ele que urrava suas baixas, ele que não é santo, que não tem santos, nem anjos pois estes se rebelaram contra sua monstruosa castidade. Na presença de Deus ela descobriu que “fomos feitos para amar, é este amor nosso onde tudo conspira contra o amor que os anjos não perdoam” (24). Nesse instante o mendigo sem nome não agüenta e chora, não agüenta tanta abertura, tanta doação e chora no mais infinito amor implorando que ela nunca o abandone, pois não sabe viver sem ela.
Esquivando-se dessa ilusão, em Acenos e Afagos delicadeza e brutalidade se confundem e se misturam. Não há mais a esperança de uma intimidade, pois esta se perde inevitavelmente, mas cedo ou mais tarde. Do que você construiu, do que compartilhou com outro corpo, a maior visceralidade, a maior abertura inevitavelmente se fecha, o rasgo cicatriza, se re-compõe, se re-configura, e o corpo fica pronto para outra experiência da mesma intensidade ou até mais forte. Isso não é grave, não é trágico no livro de Noll, é apenas a constatação do que já havia sido anunciado por ele, ou pressentido: a vida é assim mesmo e vale a pena continuar vivendo. Mais tarde, provavelmente, a animosidade será de novo abastecida pela atração e outras experiências irão acontecer, mas nunca em um além-corpo. É na carne que o personagem, arrastado pelo magnetismo dos prazeres, experimenta as transformações oriundas de sua abertura. Todos ali eram “amantes e peritos do próprio corpo” (25).
Para Karl Erik, “O ponto crucial nessa nova narrativa é exactamente a maneira em que o corpo do narrador absorve a exterioridade da experiência e, simultaneamente, a razão reflexiva e a intencionalidade subjectiva, criando uma escrita que se percebe realizar as transformações que ocorrem, não entre o exterior e o interior, mas na diluição de sua distinção. Assim, a escrita performa um devir contínuo que não indica o limite do silêncio na transgressão erótica, nem foge pelas linhas de fuga do devir-menos, mas ganha potencia ora virando mulher ora hermafrodita, multiplicando as possibilidades de vida para alem das fronteiras da morte” (26).
A questão que se coloca em Noll, a partir daí, é então como a literatura se torna ela também uma experiência do real. Tanto n’A fúria do Corpo quanto em Acenos e Afagos não é pelo viés representativo que o real se faz presente ou se anuncia,mas também não é por um além-da-representação. Trata-se antes de uma preocupação que, tendo como corpo lugar de presença a partir do qual se desenrola o discurso delirante e ficcionalizado, abarca a própria realidade da escrita em relação à realidade da vida. Ou seja, há uma realidade própria da escrita que se prolifera trazendo para dentro dela elementos, restos de experiências do real; é uma escrita norteada pela utopia da presença, uma escrita de combate; escrita, portanto, produtora de diferença, que se desarraiga de uma imagem no sentido imaginário desta, em proveito de uma invasão de reais possíveis. Nesse sentido, é uma literatura que traz para si algo que pertence ao real: um corpo bruto, sem nome, e desejante.
Uma dessas invasões do real Julia Kristeva nomeou ser o fenômeno da abjeção, em Noll trazido pelo corpo abjeto de seus personagens. Mas não quero me aprofundar na questão da abjeção propriamente, embora a considere muito relevante. Interessa-me aqui, mais do que a abjeção em si, a abertura dos corpos que é uma condição para a abjeção. Abrir o corpo para que ele se inunde do real, mesmo que esse real muitas vezes doa, feda e incomode; e abrir a escrita para que ela seja infestada de presença.
Da mesma forma que seus narradores personagens não sabem exatamente para onde se dirigem, sendo movidos apenas por seus desejos libidinais, Noll também não sabe onde sua escrita o levará. Disse certa vez para mim, em uma palestra, que escrevia de acordo com a vontade de suas mãos, e o disse novamente sendo ele o mendigo anônimo: “Escrever é ler o que a mão inspira” (27) O mendigo “ apertava a mão de Afrodite contra o lápis e era o pastor daquela escrita ainda disforme, traços agudos, angulosos como uma figura raquítica que gritasse o testemunho da guerra, da fome, da destruição, a letra de Afrodite ainda seguia sua direção mas já marcava no papel de embrulho seu próprio desespero, todas as intempéries da vida ali registradas naqueles traços que perseguiam as letras” (28).
Não se trata apenas de uma negação da escrita como representação da realidade, ato de certa forma comum na literatura contemporânea, há uma preocupação em Noll com a própria realidade da escritaem movimento, em construção, em como ela extrapola a literatura até o limite do sentido, até o extremo da linguagem, até onde ela se converte em ação, em pulsão, em gesto que se afirma ao mesmo tempo em que afirma a presença de um corpo que está ali como índice do real. No entanto, o corpo incrustado em sua escrita por si só não traz consigo a condição de afirmar-se como marca do real, é preciso algo mais. Então eu me pergunto o que em sua escrita faz com que eu não pare de ler, o que faz com que eu sinta que algo se anuncia, me espeta, me fura, o que faz com que eu não o leia como leio Sade ou até mesmo, em certos casos, Bataille. Mesmo o Bataille da História do Olho ou o Sade de Cento e Vinte dias de Sodoma. Com eles chega um momento em que parece que estou lendo um manual erótico de absurdos cuja realidade é unicamente a da própria literatura.
Com Noll é diferente, ele pode falar os maiores absurdos e eu estou ali, firme, seguindo com ele - como acontece com Lautréamont, por exemplo - estou ali, o acompanhando, cúmplice do extremo que atingem os corpos desesperados. Há uma realidade lúbrica em Noll da própria escrita, como o há em Sade, há uma transgressão que só é possível, muitas vezes, na literatura, como em Sade, no entanto Noll extrapola a dicotomia realidade da literatura / realidade da vida ao narrar em primeira pessoa o trajeto erótico desses corpos brutos desejantes de algum afago. A força bruta desses corpos invade a literatura como um índice do real, fazendo com que a proliferação da narrativa não seja gratuita, baseada em ausências, mas baseada em presenças. Há algo que toca, que afeta, que desnorteia. N’A Fúria do Corpo e em Acenos e Afagos, tudo acontece em torno do desejo erotizado do outro, da necessidade de abertura do corpo próprio e da urgência instantânea da presença de um corpo alheio; da mesma forma, a escrita de Noll é movida por essa libido.
Muitos críticos o situam na seara do neo-barroco latino-americano, baseando-se na idéia de um barroco tagarela. Como se ele fosse um discurso cativo apenas de si mesmo. Sim, ele é cativo de si mesmo, sim ele inaugura uma realidade própria da escrita, no entanto o que move a criação dessa realidade não é um exercício de linguagem que se prolifera rodeando um núcleo ausente, como em Sade, mas é uma escrita que, trazendo para a ficção os restos do real, prolifera-se escandalosamente a partir desse índice.
É importante explicar-me um pouco: a presença dos restos do real não indica a necessidade de uma referencialidade externa para a escrita, é antes “uma invasão, um grito, um tapa, uma rasteira que, com furor e violência, rompe o discurso encastelado”. É uma narrativa que não pára diante dos obstáculos próprios da diferença entre literatura e vida, escrita e experiência; não fica em cima dos obstáculos, mas os atravessa com o corpo, força a passagem de um lado ao outro, é o cria- dor e a criatura do real. “Assim, oferece uma espécie de antídoto contra a melancolia reinante, que desfaz a oposição entre a brutalidade e a delicadeza na afirmação violenta e incondicional do gesto literário” (29).
Bibliografia:
BATAILLE, Georges. A Experiência Interior. São Paulo: Editora Ática, 1992.
O Erotismo. São Paulo: Arx, 2004.
CHIARA, Ana Cristina de Rezende. Intelectuais delirantes. Texto apresentado em função do XI Congresso Internacional da ABRALIC , Tessituras, Interações, Convergências - realizado de 13 a 17 de julho de 2008, na USP- São Paulo, Brasil.
NANCY, Jean-Luc. Corpus. Paris: Éditions Métailié, 2000. P.91.
NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008.
Acenos e Afagos. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008.
ORNELLAS, Sandro. “A narrativa subjetivante de João Gilberto Noll”, In: Revista Verbo, n° 21.
GARRAMUÑO, Florencia. Los restos de lo real. Arquivo digital cedido pela mesma.
SCHULHAMMER, Karl Erik. “Os caminhos do realismo na cultura da ferida”. Texto não publicado apresentado em função do colóquio: Literatura e realidade - realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em outubro de 2008. SANTIAGO, Silviano. “O evangelho segundo João” In: Nas malhas da Letra, n. 7.
1 NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 2 Idem. 3 SCHULLHAMMER, Karl Erik. “Os caminhos do realismo na cultura da ferida”. Texto não publicado apresentado em função do colóquio: Literatura e realidade, realizado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em outubro de 2008. 4 NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 5 Idem 6 Ibid. 7 BATAILLE, Georges. O Erotismo. São Paulo: Arx, 2004. . 8 SCHULLHAMMER, Karl Erik. Op. Cit. 9 NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 10 Idem. 11Ibid. 12 Ibid. 13 Ibid. 14 Ibid. 15 Ver em O Erotismo o capítulo “O erotismo na Experiência Interior”. 16 BATAILLE, Georges. A Experiência Interior. São Paulo: Editora Ática, 1992. 17 NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 18 Idem. 19 Ibid. 20 Ibid. 21 SCHULLHAMMER, Karl Erik. Op. Cit. 22 Idem. 23 Ibid. 24 Ibid. 25 NOLL, João Gilberto. Acenos e Afagos. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 26 SCH?LLHAMMER, Karl Erik. Op. Cit. 27 NOLL, João Gilberto. A Fúria do Corpo. Rio de Janeiro, São Paulo : Record, 2008. 28 Idem 29 SCHULLHAMMER, Karl Erik. Op. Cit. |