Retiro 2018 Paraty

TESTEMUNHOS

Cynthia Lira  O encontro de dois corpos no espaço...se tocam levemente mão estendida de uma no braço da outra...se reposicionam os corpos diante da presença do outro...uma de frente para outra de pé....as mãos se espelham...se acompanham ...me sinto vista e percebo um prazer de ser reconhecida na  concretude da presença do corpo

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dois corpos deitados...entrelaçados...troncos sobrepostos um por cima do outro em viés diagonal girando rolando devagar no chão ...penso/sinto o peso de uma na outra com a contribuição da gravidade....imagino o peso gostoso no "lugar certo"

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caretas e sons...a boca da movedora faz vários formatos emitindo sons diferentes ...me traz a amplitude da gama de sentimentos de que somos capazes

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Eu volto à minha casa e descubro que tenho uma casa protegida que me acolhe e me conversa e me exige cuidados ....algumas tarefas por fazer...mas pauso para receber o bicho...esse novo pedaço em mim que faz de mim outro eu...

Como novo no pedaço

Esse pedaço novo

precisa saber-se reconhecido

e acolhido no seu lugar

pois existem muitos lugares em mim

lugares que posso habitar ou não

tenho escolha de saída

por isso as passagens são importantes

Rituais de passagem

Faço uma fogueira para reconhecer um novo centro em mim

tenho muitos centros que obedecem às forças do cosmos

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Bicho em mim

Bendito seja

Agora que te conheço

te acolho

te recebo

te convido

A andar ao meu lado

Naiá Delion - Estou ajoelhada no chão, sentada sobre meus calcanhares. Minha mão direita toca meu ombro esquerdo. Meu braço esquerdo passa por cima do meu braço direito e minha mão esquerda toca meu ombro direito. Como se eu abraçasse a mim mesma. A mão direita desliza pelo braço esquerdo ao mesmo tempo em que a mão esquerda desliza pelo braço direito. As mãos deslizam até se tocarem. Depois deslizam uma sobre a outra, até que apenas os dedos estejam se tocando. Os dedos flexionam uns sobre os outros como que formando um dos elos de uma corrente. Penso no meu companheiro. Sinto amor. Respondo para mim, a pergunta do primeiro dia: onde tenho me testemunhado pouco? Tenho me testemunhado pouco no amor, certamente. Cada segundo do retiro valeu para ter chegado nisso.

Flávia Tavares -

Relato Retiro Reencontro Resto Rastro

Releio as notas do caderno que foi comigo ao retiro. Revivo sensações, imagens e sentimentos. Experimento novamente a força do encontro dos corpos moventes, retirados de suas cidades e territórios existenciais para habitar por 4 dias um espaço outro, um plano comum, em prática de Movimento Autêntico. O retiro foi aberto com Soraya evocando a prática do testemunho como a prática do M.A. Ela nos convida logo no primeiro dia a adentrar uma pergunta: que lugares eu quero abrir mais para me testemunhar? Eu sinto e sei que percorri essa pergunta todos os dias do retiro. Percorri com meus olhos fechados e abertos, com minha respiração acelerada e dilatada, com minha boca se abrindo, se apertando, com minha cabeça se movendo em direções conhecidas e desconhecidas, com minha coluna, ossos, músculos, órgãos, com meus estados viscerais, com minha imaginação e com meus pensamentos. Percorri nos encontros e desencontros com os outros corpos, quanta movência! Busquei ficar perto do difícil e vigoroso mundo de meus isolamentos e sustos, mas também dos sedutores mundos de meus desejos em forma de algazarras. Saí do retiro com a sensação de ter desenvolvido um pouco mais minha condição humana, de ser mortal e viva, finita e infinita, em companhia de clã. A seguir, um relato de um trecho anotado em meu caderno, na colheita dos gestos que nos ficam após mover: “Minha boca me fica. Estou de pé e minha boca existe. Minha boca vai embocando-se em bicos, aberturas, torções, cada boca uma embocadura. Cada boca, sensações e imagens diferentes. Minha boca se move e eu me movo com ela. Entre a leveza pirilampa do beijo e a firmeza rangente da mandíbula furiosa, coisas acontecem. Boca armando-se para morder. Uma fisicalidade da agressividade pode ser formativa. Vou integrando minha capacidade para a violência. Engrandecer a raiva em estado de movedora é me humanizar. Reconheço que é possível viver, sentir e me proteger, ir e vir nas intensidades. O problema não é um labirinto a se percorrer. O problema é uma pista da incorporação de uma solução.”

Aline Fiamenghi

questão de estilo?

tenho muitos altares
amo vários deuses

vários saberes

sou pulverizada

minhas veias permeáveis

falta calcinatio

ora estouro

ora permaneço com a consistência de um touro

mas mesmo assim,

ai de mim

sofro de não coagular

e de tantas outras dores mar

dissolvo para solucionar

expando no contorno delineado pelo toque forte  da mão no peito

e um encontro entre colunas

o deleite da estrutura

a partir disso posso seguir brincando, sem desmoronar. 

Mariana Avillez Como o retiro na força de grande dínamo, um caldeirão conversor de marcas e padrões. A experimentação partilhada da vida em seu ‘coeficiente de liberdade’. A força do clã produtor. Trago em mim clã e sou tragada, propagada, por esse ninho-larvar-vulcânico. Palavra e gesto são coisa grande.

Drica Ayub - Me testemunho em transformação. Em transmutação, aprofundando profundezas já existentes e descobrindo outras. O retiro se inicia bem antes do dia 16. Para  além do retiro, vivo processos intensos por conta da minha virada de ciclo. Aniversário dia 16. 34 anos. Chego antes, me testemunho presente e entregue e me sinto testemunhada pela Natureza exuberante do local. O grupo diferente chega. Sinto estranhamento a principio. Com o mover e testemunhar adentro mundos em mim, desenvolvo novos movimentos.  Consigo respirar tranquilamente e meu corpo apenas se detém no trabalho. Dentro e fora de sala. Estou ali apenas para isso, minha única função e issi me traz um testemunho mais presente e sinto uma paz e tranquilidade tão intensas que mergulho ainda mais no meu mover. O testemunhar se torna cada vez mais fluido e prazeroso. O melhor presente que poderia ter me dado. 

Valéria Vicente - O retiro do movimento Autêntico é um presente que todos deveriam se dar regularmente. Uma experiencia de muito amor e respeito, no sentido mais profundo desses termos. Para mim foi um espaço para aprofundar-me, adentrar no indizível muito bem acompanhada. Ser testemunhada nesse contínuo de descanso e movimento é maravilhoso.

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